Ela chegou em casa e viu em cima do balcão as
cartas deixadas ali, as pegou e passou uma a uma, a maioria eram contas o
que a fez ter atenção especial somente a uma que tinha seu nome escrito
a mão em uma caligrafia familiar. Estava sem selo e endereços de
remetente ou destinatário, significando que foi deixada ali pelo seu
remetente ou alguém próximo. Ela estava curiosa para saber o conteúdo,
mas não poderia fazê-lo naquele momento, então guardou dentro da bolsa
para poder ler quando estivesse sozinha.
A curiosidade sobre a carta acabou sendo substituída pela rotina do
dia-a-dia e ela apenas foi se lembrar da mesma quando a bolsa caiu no
chão dias depois e o envelope meio amassado apareceu aos seus pés. Ela
recolheu tudo e guardou de volta na bolsa, menos a carta que deixou em
cima da mesa, se levantou para fechar a porta da sala e depois voltou a
se sentar e ficou encarando o envelope por alguns instantes tentando
lembrar daquela caligrafia, o que foi em vão então, rapidamente, abriu a
carta e desdobrou o papel que estava dentro escrito a mão também.
"Querida Marie,
Eu passei dias pensando em você, depois anos sem nem lembrar do
seu nome, mas de uns meses para cá sua lembrança voltou a minha mente e
me permiti ser tomado por velhas sensações que fizeram te escrever isso
em meio a uma pequena viagem de trem.
Eu me sentei no banco do trem na direção contrário do mesmo, o
sol ainda estava brilhando do lado de fora quando comecei a sentir a
movimentação e a paisagem começou a se mover. Eu coloquei o notebook na
mesa de centro, o abri e liguei, dentro de poucos segundos o papel de
parede mostrando uma janela embaçada com a imagem de uma rua chuvosa
apareceu. Me recordo como se fosse hoje quando essa foto foi tirada, não
exatamente essa, mas a que carrego comigo dentro da moleskine. Você
estava sentada na cama tentando dedilhar algumas notas no violão, mas
seus dedos eram pequenos demais para isso, então você desistiu, colocou o
velho instrumento de lado, pegou a máquina fotografia estourada e tirou
uma fotografia da janela, eu fiquei louco por você estar gastando filme
com algo inútil, mas fiquei contente com o resultado, embora nunca
tenha te contado sobre isso.
Meu coração então apertou e como vinha fazendo nos últimos meses
eu abri o navegador digitando seu nome em um site de buscas, você não
tinha um nome comum e, como das outras vezes, as coisas que achei
continuavam a ser as mesmas, pedaços da vida de uma pessoa que eu não
mais conhecia, o rosto e o corpo continuavam quase os mesmos, mas o fato
de eu não estar mais ali ao seu lado fez com que tudo aquilo que
encontrei sobre você não tivesse relação com a minha Marie.
De alguns tempos para cá eu passei a me perguntar como seria
encontrar você após tantos anos, se você se lembraria de mim e como se
lembraria, porque mesmo após alguns anos sem nem lembrar do seu nome eu
ainda consigo lembrar do seu jeito, a garota de cabelos compridos e
finos, com o corpo esguio e o rosto cheio de sardas que costumava sentar
na varanda de casa ao meu lado tomando um refrigerante de lata enquanto
me olhava tocar algum clássico dos anos 80.
Eu costumava ser o garoto por quem você era apaixonada quando
tinha 15 anos andando atrás de mim por onde quer que eu fosse e que
continuou até ter 17, quando eu comecei a ter alguns sonhos, mas você
não podia me acompanhar neles e mesmo assim continuou acreditando em mim
inclusive no dia em que eu coloquei o violão nas costas, entrei no
velho carro com meus jeans rasgados e sai atrás de um sonho.
Obtive sucesso pelo nisso, mas junto disso me veio o esquecimento
de onde vim, de quem eu costumava ser e, principalmente, da pessoa mais
importante e quem eu mais amava...você! Quando me dei conta disso era
tarde demais, você já tinha uma família e se esqueceu de mim, embora eu
tenha descoberto que continuo com aquele mesmo sonho de que voltaria
para casa para te buscar e nós viajaríamos o mundo juntos quando tudo
estivesse bem, mas você continuou, está feliz, com uma vida perfeita e
se afastou de mim como esse sonho.
Será que você se esqueceu mesmo de mim Marie? Será que não se
lembra quando me vê em alguma revista? E se lembra o que você pensa?
Será que me amaldiçoa por tê-la esquecido ou me agradece por ter feito
você se livrar de mim e conseguir ter uma vida perfeita?
As vezes eu queria poder voltar no tempo e pará-lo em um daqueles
dias em que eu te olhava dançar livremente sem nenhuma vergonha e de
uma maneira desengonçada no quintal ao lado da sua irmãzinha com a chuva
caindo, você sendo aquela garota forte (mas só porque não havia sido
machucada), respondona e as vezes mal educada, mas que era um doce
quando se tratava de mim, da sua irmã ou da sua avó.
Eu sinto muito a sua falta e a falta daqueles dias e além das
desculpas que eu quero te pedir, eu preciso e quero que você saiba de
algo que eu sempre senti e que nunca fui capaz de dizer apesar de suas
“não diretas” cobranças, mas que agora eu escrevo para que fique
guardado em você quando ler isso e na eternidade: Eu sempre amei você e
vou continuar amando.”
Ela deixou o papel cair assim que terminou de ler, estava sem fôlego e
uma tímida lágrima escorreu dos olhos dela, nunca imaginaria que aquilo
que viveram na adolescência pudesse ter realmente significado algo para
ele, não depois que a comunicação com ele foi acabando e do que via nas
revistas, e muito menos que ele pudesse se lembrar dela e amá-la! Verbo
que ele nunca disse a ela.
Mas em meio a tristeza que surgiu, surgiu também uma chama de
esperança de que ele estivesse por perto ‘cuidando’ dela da forma que
fosse, já que ele sabia onde ela morava e sabia que ela estava tão bem e
feliz que havia se esquecido dele, embora não pudesse dizer o mesmo
dele. Ela rapidamente sentiu vontade de encontra-lo, abraçar e sentir o
cheiro de canela que seus cabelos e roupas tinham, mas, segundos depois,
essa vontade desapareceu, porque embora ele ainda fosse o garoto por
quem foi apaixonada um dia, ela mudou, não era mais aquela garota
ingênua e a única coisa que conseguia sentir por ele alegria por ter
conseguido o que sempre sonhou, ainda que junto a isso tenha vindo uma
vida vazia e solitária.
*Desculpe os erros.
